Imagem ilustrativa · Mikhail Nilov / Pexels
Ensinar uma criança autista a esperar é uma habilidade que pode ser desenvolvida de forma estruturada, com apoio visual e comunicação funcional. A espera está presente em diversos contextos do dia a dia, como em interações sociais e na vida em comunidade, e envolve capacidades como compreensão do tempo, paciência, autocontrole, tolerância à gratificação adiada e confiança de que o pedido será atendido.
Por que ensinar a esperar de forma intencional
Segundo a pauta consolidada, a espera deve ser ensinada deliberadamente e de maneira estruturada, e não deixada ao acaso. Ao iniciar esse ensino, dois elementos são importantes: o item que está sendo aguardado e a duração da espera. Se os primeiros ensinamentos ocorrerem em ambientes não controlados, como uma fila ou um restaurante, a duração da espera é imprevisível. Já no ensino estruturado, o adulto sabe tanto o que a criança deseja quanto exatamente quanto tempo ela esperará.
Comunicação funcional como base
O ensino da espera funciona melhor quando a criança já consegue pedir o que quer de forma funcional, seja por meio da fala, do PECS (Picture Exchange Communication System) ou de outros recursos de comunicação aumentativa e alternativa (CAA). Ensinar a esperar antes que a criança consiga pedir consistentemente o que deseja e precisa pode prejudicar o valor da comunicação.
Uma das dificuldades em ensinar a espera é que se trata de um conceito abstrato. Por isso, muitos ambientes utilizam pistas visuais para sinalizar que um atraso está por vir. Os apoios visuais tornam a expectativa concreta. Combinar a palavra falada “espera” com uma pista visual oferece um sinal claro e consistente de que haverá um atraso, mas que o acesso virá em seguida. Um cartão “ESPERA” dá à criança uma representação tangível do atraso.
Exemplo prático de ensino da espera
No exemplo prático descrito na pauta, a criança pede um cubo mágico usando PECS e o adulto imediatamente entrega o cartão “ESPERA”. O adulto diz calmamente “Espere” e a criança segura o cartão. Em seguida, o adulto conta silenciosamente até 1 segundo e diz “Boa espera!”. Depois, o adulto retira o cartão “ESPERA”, entrega o cubo mágico à criança e nomeia “Cubo mágico”.
O primeiro intervalo de espera deve ser curto, de apenas alguns segundos, e sempre seguido de reforço positivo. O tempo de espera é então aumentado gradualmente, em pequenos passos que sejam quase imperceptíveis para a criança.
Como lidar com protestos durante o aprendizado
Mesmo com cuidado, podem ocorrer protestos à medida que o tempo de espera aumenta. Durante os protestos, é essencial que o adulto permaneça calmo e evite reagir de uma forma que reforce involuntariamente o protesto. Encurtar consistentemente a espera sempre que a criança ficar chateada pode prejudicar o aprendizado dessa habilidade.
Benefícios para a participação e a confiança
A espera é uma das habilidades essenciais de comunicação e aumenta a participação da criança autista em casa, na escola e na comunidade. Ensinar a criança a esperar ajuda-a a compreender que a comunicação leva a resultados, mesmo quando o resultado não é imediato. O ensino da espera também desenvolve resiliência, reduz a frustração e fortalece a confiança da criança de que o ambiente é consistente e confiável. Quando ensinada com apoio visual, previsibilidade e progressão gradual, a espera deixa de ser um momento tenso e passa a ser uma oportunidade de aprendizagem.
Orientações práticas para famílias e profissionais
- Verifique se a criança já consegue pedir o que deseja de forma funcional antes de iniciar o ensino da espera.
- Utilize apoios visuais, como um cartão “ESPERA”, para tornar a expectativa concreta.
- Comece com intervalos curtos, de poucos segundos, e aumente gradualmente.
- Mantenha a calma diante de protestos e evite reforçar involuntariamente o comportamento.
- Busque orientação de profissionais qualificados para adaptar as estratégias às necessidades individuais de cada criança.
Considerações finais
Ensinar a esperar é uma habilidade que pode ser desenvolvida com comunicação funcional, apoio visual e aumento gradual e previsível do tempo de espera. Cada criança autista é única, com suas características, necessidades e potencialidades, e o acompanhamento profissional é fundamental para individualizar o processo. As referências citadas na pauta incluem Bondy, A., & Frost, L. (2011), A Pyramid Educational Approach: A Guide to Functional ABA, Newark, DE: Pyramid Educational Consultants; Bondy, A., & Frost, L. (2024), The Picture Exchange Communication System® (PECS®) Training Manual (3rd ed.), Newark, DE: Pyramid Educational Consultants, LLC; e Bondy, A., & Frost, L. (2011), A picture’s worth: PECS and other visual communication strategies in autism (2nd ed.), Woodbine House.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento profissional.

